Recebi uma notificação do CRM: o que fazer nas próximas 48 horas?
Receber uma notificação do Conselho Regional de Medicina pode gerar insegurança, ansiedade e dúvida …

A paciente colocou um DIU, um implante subdérmico ou passou por uma laqueadura. Meses depois, está grávida. A primeira reação da família costuma ser procurar um culpado, e o nome que aparece na receita, no prontuário e no recibo é o do médico que fez o procedimento.
A gravidez após um método contraceptivo não é, por si só, erro médico. Nenhum método tem eficácia absoluta, e a jurisprudência brasileira reconhece isso há anos. Mas a condenação acontece, e quando acontece quase nunca é pela falha do método. É pelo que o médico deixou de fazer, de informar ou de registrar.
A relação entre médico e paciente, em regra, gera uma obrigação de meio. O profissional se compromete a empregar a técnica adequada, com diligência e conforme o conhecimento científico disponível, e não a garantir um resultado. O Código de Defesa do Consumidor traduz isso no art. 14, § 4º: a responsabilidade pessoal dos profissionais liberais é apurada mediante a verificação de culpa. O Código Civil, no art. 951, segue a mesma lógica para o dano causado no exercício da atividade profissional.
Aplicado à contracepção, o raciocínio é direto. A literatura médica registra índices de falha pequenos, mas não nulos, para todos os métodos, inclusive os definitivos. A vasectomia pode sofrer recanalização espontânea dos canais deferentes. A laqueadura pode falhar. O DIU pode se deslocar ou ser expelido. Se o procedimento foi feito com a técnica correta e a paciente foi informada dessa margem, a gravidez é um risco inerente ao método, e não uma conduta culposa.
Foi o que decidiu o Tribunal de Justiça de Minas Gerais, em caso divulgado em 2020, ao negar indenização a um paciente que teve filho após a vasectomia: a perícia apontou que o método é seguro e eficaz, mas não isento de falhas, e que a recanalização temporária, embora rara, pode acontecer. Sem prova de falha na prestação do serviço, não houve condenação.
Quando o médico ou a clínica são condenados, o motivo quase sempre se encaixa em um destes três grupos.
1. Falha técnica na colocação ou na cirurgia. O dispositivo não foi inserido, foi mal posicionado ou a técnica cirúrgica foi inadequada. Em decisão de primeira instância divulgada em setembro de 2026, a Justiça de Santa Catarina condenou médica e clínica depois que a perícia concluiu que o implante contraceptivo nunca esteve no braço da paciente, embora o registro dissesse o contrário.
2. Falha de informação. A paciente não foi esclarecida de que o método pode falhar, de quais sinais indicam problema e de quando procurar reavaliação. Aqui a defesa perde a sua principal tese, porque o risco que não foi informado deixa de ser um risco aceito.
3. Falha de acompanhamento. A paciente volta com sangramento irregular, dor ou suspeita de deslocamento e recebe como resposta que “não há risco de engravidar”, sem exame que confirme a posição do dispositivo. No mesmo caso de Santa Catarina, esse ponto pesou tanto quanto a inserção: diante das queixas, a equipe deveria ter verificado a presença do implante e, se ausente, indicado outro método.
Repare que em nenhum dos três a falha do método é o fundamento. O que se julga é a conduta.
O Superior Tribunal de Justiça tratou do tema com profundidade no REsp 1.540.580/DF, julgado pela Quarta Turma em 2 de agosto de 2018. O tribunal afirmou que o dever de informar é obrigação do médico, que o consentimento não pode ser genérico e precisa ser individualizado ao caso do paciente, e que o dano indenizável, quando a informação falta, é a violação da autodeterminação do paciente, privado de decidir com conhecimento dos riscos. O acórdão também registrou que cabe ao médico ou ao hospital provar que cumpriu esse dever.
Esse último ponto tem consequência prática enorme. Numa ação por gravidez após contracepção, não é a paciente quem precisa provar que não foi informada. É o médico quem precisa demonstrar que informou. Sem documento, a palavra dele vale pouco.
O Código de Ética Médica (Resolução CFM nº 2.217/2018) caminha no mesmo sentido: veda deixar de obter o consentimento do paciente após esclarecê-lo sobre o procedimento (art. 22) e deixar de informar os riscos e os objetivos do tratamento (art. 34). A mesma omissão que sustenta a ação civil pode sustentar uma sindicância no CRM.
Para a esterilização voluntária existe exigência expressa em lei. A Lei nº 9.263/1996, que trata do planejamento familiar, condiciona a cirurgia, no art. 10, § 1º, ao registro da manifestação de vontade em documento escrito e firmado, depois da informação sobre os riscos da cirurgia, os possíveis efeitos colaterais, as dificuldades de reversão e as opções de contracepção reversíveis existentes.
Com as mudanças da Lei nº 14.443/2022, a idade mínima passou a 21 anos (ou dois filhos vivos), o prazo de 60 dias entre a manifestação de vontade e a cirurgia foi mantido, e deixou de ser exigido o consentimento do cônjuge. Quem realiza o procedimento sem esse documento, ou com um termo que não menciona a possibilidade de falha, entra na discussão judicial em desvantagem.
Há um cenário em que a defesa é especialmente forte: quando a gestação começou antes da colocação do dispositivo ou da cirurgia. Em 2018, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (Acórdão 1126435, 5ª Turma Cível) afastou a responsabilidade num caso de laqueadura em que a paciente teve o parto oito meses depois do procedimento, o que indicava gravidez prévia, e em que ela havia sido informada da margem de falha do método.
Esse tipo de defesa depende de duas coisas que só existem se foram feitas na época: a exclusão documentada de gravidez antes do procedimento e a data exata de cada ato no prontuário.
Uma rotina documental que protege o médico e a clínica em qualquer método:
Sobre o peso do termo, vale ler por que o termo de consentimento hospitalar genérico não protege o médico. E, para o quadro geral de como essas ações são julgadas, o guia sobre erro médico.
O Dr. Alessandro Caldonazo e sua equipe técnica especializada atuam na defesa de médicos, dentistas, clínicas e hospitais. Em ações por gravidez após contracepção, o trabalho começa pela reconstrução documental do atendimento, segue pela formulação dos quesitos da perícia, que é onde esses casos costumam ser decididos, e cobre a defesa em eventual sindicância ou processo ético no CRM aberto a partir da mesma queixa.
Para ginecologistas, urologistas e clínicas que ainda não foram demandados, o atendimento preventivo revisa os termos de consentimento por método, o fluxo de retorno e a forma de registro no prontuário, para que a defesa exista antes de ser necessária. O escopo desse atendimento está na página de advogado para médicos em Campinas.
Se você recebeu uma notificação, uma citação ou uma queixa relacionada a método contraceptivo, a análise do caso é feita em consulta, com hora marcada e honorário definido. Para agendar, use o formulário do site ou o WhatsApp do escritório.
Não por si só. Nenhum método contraceptivo tem eficácia absoluta, e a relação médico-paciente gera, em regra, obrigação de meio. Pelo art. 14, § 4º, do Código de Defesa do Consumidor, a responsabilidade pessoal do médico depende da verificação de culpa: falha técnica, falha de informação ou falha de acompanhamento.
O médico ou o hospital. No REsp 1.540.580/DF, julgado em 2/8/2018, a Quarta Turma do STJ afirmou que o consentimento deve ser individualizado e que o ônus de provar o cumprimento do dever de informação é de quem prestou o atendimento.
O art. 10, § 1º, da Lei nº 9.263/1996 exige o registro da manifestação de vontade em documento escrito e firmado, após informação sobre riscos da cirurgia, efeitos colaterais, dificuldades de reversão e opções de contracepção reversíveis. Desde a Lei nº 14.443/2022, a idade mínima é 21 anos ou dois filhos vivos, com prazo de 60 dias entre a manifestação e a cirurgia.
A exclusão de gravidez antes do procedimento, um termo de consentimento específico do método que mencione a possibilidade de falha, o registro técnico da inserção ou da cirurgia, a orientação de retorno por escrito e o registro de toda queixa posterior com a conduta adotada.
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